Análise comparativa das características ópticas, físicas e químicas de tintas e traços produzidos por canetas, marcadores, lápis e outros instrumentos de escrita
Contratos, recibos, cheques, formulários, prontuários, documentos societários e registros administrativos podem conter lançamentos manuscritos realizados em momentos distintos ou com diferentes instrumentos escritores. Variações de cor, espessura, resposta óptica ou composição podem suscitar dúvidas sobre acréscimos posteriores, preenchimentos sucessivos, substituição de caneta ou incompatibilidade entre determinados registros.
O exame forense de tintas e instrumentos escritores procura identificar, documentar e comparar essas características. Dependendo da qualidade do material e dos métodos aplicáveis, pode avaliar se dois lançamentos são distinguíveis, se apresentam comportamento compatível nos exames realizados, se foram produzidos por categorias diferentes de instrumentos e se determinada tinta possui características associáveis a materiais de referência.
A análise deve começar de maneira neutra. Uma diferença aparente entre duas inscrições não demonstra, por si só, adulteração. Tintas provenientes da mesma caneta podem apresentar variações relacionadas ao papel, à pressão, à velocidade, ao tempo de exposição, à iluminação, ao armazenamento e ao estado do instrumento. Da mesma forma, tintas de origens diferentes podem parecer visualmente idênticas.
O referencial técnico disponibilizado pelo NIST para identificação de tintas de escrita recomenda uma abordagem sistemática, voltada à obtenção da maior quantidade possível de informação com o menor dano ao documento. O mesmo documento reconhece que formulações diferentes podem ser difíceis de distinguir e que nenhuma coleção de tintas de referência consegue abranger todos os produtos existentes.
Dúvidas sobre acréscimos, diferenças de tinta ou instrumentos utilizados em um documento
Tinta, instrumento escritor e traço gráfico
Esses três conceitos devem ser diferenciados.
A tinta de escrita é o material depositado sobre o suporte. Pode conter corantes ou pigmentos, solventes, resinas, aditivos e outros componentes, cuja formulação varia conforme o fabricante, o produto e o período de produção.
O instrumento escritor é o dispositivo utilizado para transferir a tinta ou outro material ao suporte, como caneta esferográfica, caneta gel, rollerball, caneta-tinteiro, marcador, hidrográfica, lápis ou lapiseira.
O traço gráfico é o resultado concreto da interação entre instrumento, material escritor, papel, pressão, velocidade, direção do movimento e condições de produção.
Por isso, nem toda diferença observada no traço decorre de diferença química entre as tintas. O mesmo produto pode produzir aparências diversas em papéis diferentes ou conforme o funcionamento do instrumento. Inversamente, tintas de fórmulas distintas podem apresentar cor visual muito semelhante.
O que pode ser objeto do exame?
O serviço pode abranger inscrições manuscritas produzidas por:
- canetas esferográficas;
- canetas gel;
- rollerballs;
- canetas-tinteiro;
- marcadores e canetas hidrográficas;
- lápis e lapiseiras;
- instrumentos de escrita técnica;
- outros materiais utilizados para produzir lançamentos documentais.
Podem ser examinados textos, números, datas, valores, assinaturas, rubricas, anotações, preenchimentos de formulários e demais registros relevantes para a controvérsia.
O objeto também pode incluir canetas, cargas, cartuchos ou outros instrumentos apreendidos ou preservados para comparação. Nesses casos, devem ser consideradas as condições do instrumento, a possibilidade de alteração da tinta ao longo do tempo e a necessidade de produzir amostras tecnicamente comparáveis.
O ANSI/ASB Standard 207, publicado em 2026, trata conjuntamente da preservação de documentos e dos materiais ou equipamentos relacionados à sua produção, o que inclui itens capazes de contribuir para a investigação da origem de registros questionados.
O que o exame pode responder?
Conforme o material e os métodos disponíveis, o exame pode avaliar se dois ou mais lançamentos apresentam diferenças detectáveis de cor, resposta óptica, comportamento espectral ou composição.
Também pode contribuir para verificar:
- se registros aparentemente semelhantes foram produzidos com tintas distinguíveis;
- se inscrições diferentes apresentam comportamento compatível nos exames realizados;
- se houve utilização de categorias distintas de instrumento escritor;
- se determinado lançamento apresenta características incompatíveis com outro;
- se uma tinta questionada pode ser associada a uma amostra ou grupo de referência;
- se há indícios de utilização de mais de um instrumento em um mesmo documento;
- se diferenças entre lançamentos podem apoiar a hipótese de acréscimo posterior;
- se a composição identificada é incompatível com determinada alegação cronológica.
Uma conclusão de compatibilidade deve ser formulada com cautela. Quando duas tintas não apresentam diferenças nos métodos utilizados, pode-se afirmar que elas são indistinguíveis no nível dos exames realizados. Isso não significa automaticamente que tenham saído da mesma caneta, que pertençam ao mesmo lote ou que constituam uma formulação exclusiva.
O padrão do SWGDOC esclarece que uma correspondência analítica pode indicar mesma formulação ou fórmulas semelhantes com os mesmos componentes detectados. Também adverte que outras técnicas poderiam, em determinadas situações, diferenciar amostras que inicialmente apresentaram resultados compatíveis.
O que o exame não determina isoladamente?
A análise de tintas normalmente não permite, por si só:
- identificar quem realizou o lançamento;
- demonstrar que determinada pessoa utilizou a caneta;
- estabelecer a data exata da escrita;
- provar que uma diferença de tinta corresponde a fraude;
- determinar se o acréscimo foi autorizado;
- comprovar o momento jurídico em que o documento foi concluído;
- afirmar que duas inscrições foram produzidas pela mesma caneta apenas porque suas tintas são indistinguíveis;
- excluir todas as tintas existentes no mercado quando a coleção de referência é incompleta.
A autoria da escrita pode exigir exame grafoscópico. A intenção, a autorização, a responsabilidade e a validade jurídica dependem do conjunto das evidências e da apreciação da autoridade competente.
A identificação de uma formulação também não equivale necessariamente à identificação individual do instrumento que produziu o traço. Diversas canetas, cargas ou lotes podem utilizar formulações equivalentes ou analiticamente indistinguíveis.
Principais categorias de instrumentos escritores
Canetas esferográficas
A caneta esferográfica transfere o material escritor por meio de uma pequena esfera situada na extremidade da ponta. A aparência do traço pode variar conforme a formulação da tinta, o funcionamento da esfera, a pressão, a velocidade, o papel e o estado de conservação do instrumento.
Sob ampliação, podem ser observadas distribuição do material, eventuais falhas, estrias, acúmulos e outras características relacionadas ao contato entre a ponta e o suporte.
Essas características podem auxiliar na classificação do instrumento e na interpretação do traço, mas não devem ser consideradas marcas individualizantes automáticas de uma caneta específica.
Canetas gel
Canetas gel utilizam formulações e mecanismos de transferência que podem produzir traços de aparência mais opaca ou com distribuição de material distinta daquela observada em determinadas esferográficas tradicionais.
A aparência final depende da formulação, da cor, do papel e do movimento de escrita. A classificação visual deve ser tratada como hipótese inicial e, quando necessário, complementada por exames ópticos ou químicos.
Rollerballs e canetas-tinteiro
Rollerballs e canetas-tinteiro podem produzir tintas com maior penetração ou espalhamento no suporte, dependendo da formulação e da absorção do papel.
Diferenças de fluxo, largura, saturação e comportamento nas fibras podem auxiliar na classificação, mas não permitem, isoladamente, determinar a marca ou o modelo do instrumento.
Marcadores e canetas hidrográficas
Esses instrumentos transferem tinta por meio de pontas porosas ou fibrosas. O traço pode apresentar características relacionadas à estrutura da ponta, à quantidade de tinta disponível, à pressão e ao tipo de suporte.
Marcadores de composição e finalidades diferentes podem responder de maneira distinta à luz ultravioleta, ao infravermelho e a outros procedimentos de exame.
Lápis e lapiseiras
Lápis e lapiseiras não depositam tinta líquida. Produzem registros pela transferência de grafite, pigmentos, ceras ou outros componentes sólidos.
O exame pode considerar tonalidade, brilho, distribuição das partículas, espessura, dureza aparente e relação com o papel. A associação a um lápis individual, contudo, costuma ser limitada quando não existem características específicas e materiais adequados para comparação.
Exames não destrutivos
O procedimento deve começar, sempre que possível, por métodos que não retirem material nem modifiquem o documento.
A inspeção visual e a microscopia podem revelar diferenças de tonalidade, brilho, textura, deposição, penetração, falhas, acúmulos e interação da tinta com as fibras do papel.
A observação sob diferentes condições de iluminação pode evidenciar contrastes que não são perceptíveis sob luz convencional. Fontes ultravioletas, infravermelhas e sistemas de luminescência podem produzir respostas diferentes conforme os corantes, pigmentos e demais componentes presentes.
Uma tinta azul que aparenta ser uniforme a olho nu pode, por exemplo, revelar comportamentos distintos quando examinada em outras regiões do espectro. Esse resultado pode demonstrar que os registros são distinguíveis, mas não deve ser interpretado automaticamente como prova de que foram realizados em datas diferentes.
O padrão para exame de documentos alterados recomenda inicialmente procedimentos não destrutivos, incluindo ampliação, iluminação controlada, ultravioleta, infravermelho, luminescência e documentação por imagens. Exames químicos de tinta devem ser considerados em etapa própria e podem exigir outros especialistas.
Comparação óptica e espectral
A comparação óptica busca registrar como as tintas se comportam sob condições controladas.
Podem ser avaliados:
- cor aparente;
- absorção e reflexão;
- fluorescência;
- luminescência;
- comportamento no infravermelho;
- homogeneidade;
- interação com o papel;
- diferenças entre regiões do mesmo traço.
Sistemas de análise espectral ou multiespectral podem ampliar a capacidade de discriminação, desde que os métodos e equipamentos sejam adequadamente validados para a finalidade pretendida.
A ausência de diferença óptica não demonstra identidade química. Algumas formulações distintas podem responder de maneira semelhante aos procedimentos não destrutivos, tornando necessária a consideração de métodos complementares.
Exames químicos e instrumentais
Quando os métodos não destrutivos não fornecem informação suficiente, pode ser necessário retirar quantidade mínima de material para análise química.
Entre os procedimentos empregados em laboratórios especializados podem estar:
- cromatografia em camada delgada;
- cromatografia líquida;
- cromatografia gasosa;
- espectrometria de massas;
- espectroscopia Raman;
- espectroscopia no infravermelho;
- outras técnicas analíticas validadas.
A escolha depende da natureza da tinta, do suporte, da quantidade disponível e da questão formulada. Nenhuma técnica responde adequadamente a todas as classes de tinta.
O padrão de identificação de tintas disponibilizado pelo NIST apresenta a cromatografia em camada delgada e sua comparação com coleções de referência como componentes relevantes de uma abordagem sistemática. Também cita métodos como FTIR, cromatografia gasosa, cromatografia líquida e outras técnicas instrumentais, conforme a finalidade do exame.
Grande parte desses procedimentos exige amostragem, conhecimentos de química analítica, controles, materiais de referência e ambiente laboratorial apropriado. A AAFS observa que muitos examinadores de documentos concentram sua atuação em métodos não destrutivos e encaminham análises destrutivas de tintas e papéis a especialistas químicos quando necessário.
Comparação e identificação não são equivalentes
A comparação procura avaliar se duas ou mais amostras apresentam diferenças ou compatibilidades nos exames realizados.
A identificação procura relacionar uma tinta questionada a uma formulação, produto ou grupo de produtos conhecidos. Esse segundo objetivo exige coleção de referência organizada, resultados analíticos comparáveis e informações confiáveis sobre fabricantes, períodos de produção e distribuição.
Uma coleção de tintas pode conter canetas, cartuchos, amostras não utilizadas, traços secos e resultados analíticos. Para ser útil, precisa ser catalogada, atualizada e associada a informações sobre aquisição e procedência.
Mesmo uma coleção extensa nunca será completa. Novos produtos são introduzidos, formulações mudam, marcas utilizam fornecedores comuns e determinados produtos podem não estar representados.
Por isso, encontrar uma amostra de referência compatível não autoriza necessariamente afirmar que ela é a única tinta possível. O padrão do SWGDOC salienta que algumas formulações não são distinguíveis e que sempre pode existir uma tinta não representada na coleção com comportamento semelhante.
É possível identificar a caneta utilizada?
Em determinadas situações, pode-se avaliar se um instrumento conhecido produz tinta ou traço compatível com o lançamento questionado.
Para isso, podem ser produzidas amostras de referência sob condições controladas, considerando:
- papel;
- pressão;
- velocidade;
- orientação do instrumento;
- período entre a produção e o exame;
- estado da caneta;
- quantidade de tinta restante;
- condições de armazenamento.
Uma tinta compatível não individualiza automaticamente a caneta. Diversos instrumentos podem conter a mesma formulação ou produto.
A exclusão pode ser mais direta quando a caneta conhecida produz tinta claramente diferente daquela presente no documento. Já a associação positiva costuma exigir linguagem mais cautelosa, proporcional à capacidade discriminante dos exames.
A preservação do instrumento é importante porque seu uso continuado, exposição, vazamento, secagem ou substituição da carga pode modificar as amostras disponíveis para comparação. A coleta e a preservação devem ser planejadas antes de novas utilizações ou intervenções.
Tintas diferentes significam momentos diferentes?
Não necessariamente.
A identificação de duas tintas distinguíveis demonstra que os lançamentos não foram produzidos com material analiticamente indistinguível nos métodos utilizados. Isso pode ser compatível com utilização de instrumentos, cargas ou formulações diferentes.
Entretanto, duas canetas poderiam ter sido utilizadas no mesmo momento. Da mesma forma, a mesma caneta poderia ser empregada em momentos distintos.
Por essa razão, a diferença de tinta não equivale diretamente a diferença cronológica. Ela deve ser interpretada em conjunto com o posicionamento dos lançamentos, a organização do documento, os cruzamentos, as impressões, o conteúdo e as demais evidências disponíveis.
Datação de tintas
Pedidos para determinar a idade de uma inscrição são frequentes, mas a resposta exige grande cautela.
Existem dois problemas tecnicamente distintos:
- verificar se a tinta ou produto já existia na data declarada;
- estimar há quanto tempo o lançamento foi realizado sobre o papel.
Compatibilidade com a data declarada
Quando uma formulação é identificada e há informações confiáveis sobre seu período de fabricação ou comercialização, pode ser possível avaliar se o produto estava disponível na data atribuída ao documento.
Se determinada tinta somente passou a ser produzida depois da data declarada, essa incompatibilidade pode ser tecnicamente relevante.
Contudo, a identificação depende da qualidade da coleção de referência e das informações fornecidas pelos fabricantes. O padrão do SWGDOC reconhece que a identificação de uma formulação pode auxiliar na avaliação das primeiras ou últimas datas de produção, mas ressalta as limitações decorrentes de bibliotecas incompletas e fórmulas semelhantes.
Estimativa do tempo transcorrido
Métodos destinados a estimar o envelhecimento da tinta analisam alterações que podem ocorrer depois do lançamento, como perda de componentes voláteis, mudanças de solubilidade ou transformações químicas.
Esses processos são influenciados por temperatura, umidade, luz, papel, composição da tinta, armazenamento e diversas outras variáveis. Documentos guardados em condições distintas podem apresentar comportamentos diferentes mesmo quando produzidos em períodos semelhantes.
Um projeto da ENFSI sobre datação de tintas reconheceu que essa área permanecia problemática e que não havia métodos de referência amplamente aceitos pela comunidade forense internacional para todos os contextos.
Por essa razão, não cabe se prometer com a determinação da data exata da escrita. Qualquer exame cronológico precisa declarar:
- o princípio empregado;
- a faixa temporal avaliada;
- as condições presumidas;
- a incerteza;
- as interferências;
- os limites de interpretação.
Sequência entre traços e lançamentos
Quando dois traços se cruzam, pode surgir a questão sobre qual deles foi produzido primeiro.
A avaliação pode considerar características ópticas, interrupções, deformações, brilho, deposição, penetração e comportamento dos materiais na região de interseção.
A possibilidade de conclusão depende:
- do tipo de tinta;
- do instrumento;
- do papel;
- da qualidade do cruzamento;
- do tempo entre os lançamentos;
- das técnicas disponíveis;
- da preservação do original.
Nem toda interseção permite determinar a ordem de produção. Uma conclusão segura exige que os achados sejam consistentes e que as explicações alternativas sejam consideradas.
Esse exame não estabelece necessariamente o intervalo de tempo entre os lançamentos. Mesmo quando a ordem relativa pode ser avaliada, não se pode concluir, apenas pelo cruzamento, se as inscrições foram produzidas com segundos, dias ou anos de diferença.
Como o exame é conduzido
A metodologia deve ser ajustada ao tipo de tinta, ao suporte, à questão formulada e à necessidade de preservar o documento.
Em termos gerais, o procedimento segue o seguinte fluxo:
Definição do escopo → preservação do material → documentação inicial → exames não destrutivos → avaliação da suficiência → eventual amostragem → análise comparativa → interpretação → conclusão e revisão.
Inicialmente, identificam-se os lançamentos questionados, as inscrições de referência, os instrumentos disponíveis e as perguntas que podem ser tecnicamente respondidas.
O documento deve ser fotografado antes de qualquer intervenção. Os exames visuais, microscópicos e ópticos são realizados prioritariamente.
Se esses procedimentos forem insuficientes, avalia-se a necessidade de métodos químicos ou instrumentais. A quantidade de material, o dano esperado, a relevância da questão e a possibilidade de exames posteriores devem ser considerados antes da amostragem.
A ISO 21043-3:2025 recomenda métodos apropriados, controles adequados, pessoal qualificado e estratégias analíticas compatíveis com a finalidade do exame. A interpretação deve responder às questões relevantes sem ultrapassar o alcance dos resultados, conforme os princípios transversais da ISO 21043-4:2025.
Métodos destrutivos e autorização
A retirada de tinta ou papel modifica o documento e pode impedir ou prejudicar exames futuros.
Por isso, métodos destrutivos ou minimamente destrutivos somente devem ser considerados depois da realização dos procedimentos não destrutivos pertinentes.
Antes da amostragem, deve-se avaliar:
- quantidade de material necessária;
- localização dos pontos de coleta;
- impacto visual;
- interferência em Grafoscopia, DNA, impressões ou outros exames;
- possibilidade de repetir a análise;
- existência de autorização adequada;
- necessidade de preservar contraprova.
O responsável pelo material deve ser informado sobre a natureza da intervenção, seus benefícios potenciais e suas limitações. A autorização e os pontos de coleta devem ser documentados.
O padrão para documentos alterados recomenda que procedimentos destrutivos somente sejam empregados após o esgotamento das alternativas de preservação, com documentação prévia e consulta ao responsável pelo material.
Documentos originais e reproduções
O exame das tintas de escrita exige, em regra, acesso ao documento original.
Fotografias, digitalizações e cópias podem modificar:
- cor;
- contraste;
- saturação;
- brilho;
- textura;
- fluorescência;
- resposta espectral;
- espessura aparente do traço.
Além disso, uma cópia não contém a tinta original, mas apenas sua reprodução por scanner, câmera, toner ou tinta de impressão.
Imagens podem ser utilizadas para avaliação preliminar, localização dos registros e documentação, mas não substituem a análise física ou química quando a questão depende das propriedades da tinta.
Se somente uma reprodução estiver disponível, o laudo deve deixar claro que o exame se limita às características da imagem e não constitui análise material da tinta existente no documento original.
Limitações e incerteza
A capacidade de diferenciação pode ser reduzida por:
- quantidade muito pequena de tinta;
- degradação;
- exposição à luz ou ao calor;
- ação da umidade;
- contato com produtos químicos;
- envelhecimento;
- contaminação;
- papel colorido ou revestido;
- sobreposição de traços;
- interferência de impressões;
- ausência de amostras comparáveis;
- biblioteca de referência incompleta.
Tintas da mesma formulação podem apresentar pequenas variações de fabricação, enquanto fórmulas distintas podem produzir respostas muito semelhantes.
O papel também pode interferir nos exames, especialmente nos procedimentos químicos e cromatográficos. Controles do suporte e amostras em branco podem ser necessários para distinguir componentes da tinta daqueles provenientes do papel.
O padrão de identificação de tintas reconhece interferências relacionadas ao processo de escrita, armazenamento, desbotamento, papel, solventes e variações entre lotes. Também adverte que nem toda tinta questionada poderá ser identificada.
A conclusão precisa ser proporcional aos resultados. Em alguns casos, será possível demonstrar que duas tintas são diferentes. Em outros, apenas afirmar que não foram diferenciadas pelos métodos realizados.
Aplicações para bancas jurídicas
O exame pode contribuir para controvérsias envolvendo:
- possíveis acréscimos em contratos;
- preenchimento posterior de datas ou valores;
- diferenças entre cláusulas e assinaturas;
- lançamentos em cheques, recibos ou notas;
- alterações em prontuários;
- documentos societários;
- testamentos e procurações;
- formulários administrativos;
- utilização de mais de um instrumento em um mesmo documento.
Uma avaliação preliminar permite verificar se o original precisa ser requerido, se existem lançamentos comparáveis e se a questão exige apenas exames ópticos ou também análise química.
Na assistência técnica, o IBPTECH pode apoiar a formulação de quesitos, a preservação do documento, o acompanhamento da amostragem, a avaliação do método e a análise crítica das conclusões apresentadas.
Quesitos adequados devem distinguir perguntas como:
- as tintas são distinguíveis?
- os lançamentos são compatíveis nos exames realizados?
- a tinta identificada existia na data declarada?
- é possível avaliar a sequência entre determinados traços?
- quais limitações impedem uma conclusão mais específica?
Aplicações para empresas e instituições
No ambiente corporativo, diferenças de tinta podem estar relacionadas a contratos, autorizações, documentos financeiros, registros trabalhistas, controles internos, formulários, atas e documentos apresentados por fornecedores, clientes ou representantes.
O exame pode apoiar:
- investigações corporativas;
- auditorias;
- procedimentos de compliance;
- disputas contratuais;
- apuração de preenchimentos posteriores;
- análise de documentos internos;
- resposta a incidentes documentais;
- preparação para processo judicial ou arbitral.
Quando o documento também apresentar suspeitas de alteração física, problemas de autoria ou inconsistências digitais, a análise deve ser integrada às demais especialidades aplicáveis.
Preservação dos documentos e instrumentos
Documentos destinados ao exame não devem ser expostos desnecessariamente à luz, ao calor, à umidade ou a produtos químicos.
Também se recomenda:
- evitar novas inscrições;
- não aplicar etiquetas ou fitas sobre as regiões de interesse;
- não plastificar;
- não limpar o papel;
- não tentar dissolver ou remover tintas;
- reduzir o manuseio;
- preservar grampos, dobras e demais elementos;
- acondicionar o documento de maneira adequada.
Canetas e outros instrumentos relacionados ao caso devem ser separados, identificados e preservados sem novas utilizações. Não se recomenda testar repetidamente o instrumento antes da orientação técnica, pois o uso pode alterar sua condição e consumir material relevante.
A origem, a data de apreensão, as pessoas que tiveram acesso e as transferências de custódia devem ser documentadas. O ANSI/ASB Standard 207 estabelece requisitos atuais para a coleta e a preservação de documentos e de itens associados à sua produção.
O que deve constar do laudo ou parecer?
O documento técnico deve identificar:
- os documentos e lançamentos examinados;
- as amostras ou instrumentos de referência;
- a natureza original ou reproduzida do material;
- os métodos empregados;
- os pontos de amostragem, quando houver;
- os controles utilizados;
- as observações e resultados;
- as limitações;
- o alcance da conclusão.
Também deve esclarecer se o resultado demonstra:
- diferença entre tintas;
- compatibilidade;
- ausência de diferenciação nos métodos utilizados;
- associação com amostra de referência;
- classificação do instrumento;
- incompatibilidade cronológica;
- ou insuficiência para conclusão.
A expressão “mesma tinta” deve ser evitada quando os resultados demonstram apenas que as amostras não foram diferenciadas. Da mesma forma, a identificação de uma formulação deve ser contextualizada pelas limitações da coleção de referência.
A ISO 21043-5:2025 prevê que relatórios forenses sejam exatos, claros, transparentes, completos e adequados à finalidade, incluindo revisão dos registros e controle da emissão dos resultados.
Atuação do IBPTECH
O IBPTECH realiza a avaliação de questões relacionadas a tintas de escrita e instrumentos escritores conforme a natureza do documento, a quantidade de material e os objetivos da demanda.
A atuação pode compreender:
- avaliação preliminar da viabilidade;
- documentação técnica dos lançamentos;
- exames ópticos e microscópicos;
- comparação sob diferentes condições de iluminação;
- análise de compatibilidade entre registros;
- avaliação do tipo de instrumento escritor;
- orientação para preservação de documentos e canetas;
- elaboração de laudos e pareceres;
- assistência técnica judicial, arbitral ou administrativa;
- integração com laboratório especializado quando forem necessários exames químicos ou instrumentais com amostragem.
A inclusão de procedimentos destrutivos depende da necessidade técnica, da disponibilidade de infraestrutura apropriada, da autorização para coleta e da avaliação dos impactos sobre o documento.
Quando necessário, o trabalho pode ser integrado à Grafoscopia, à análise de alterações documentais, ao exame de papéis e suportes e à investigação de documentos digitais.
Diferenças de tinta, possíveis acréscimos ou o instrumento utilizado em um documento
Perguntas frequentes
Duas tintas da mesma cor podem ser diferentes?
Sim. Tintas visualmente semelhantes podem possuir formulações ou respostas ópticas distintas. Exames com iluminação especializada, espectroscopia ou métodos químicos podem revelar diferenças não perceptíveis a olho nu.
Tintas diferentes provam que o documento foi adulterado?
Não. Demonstram apenas que foram utilizados materiais distinguíveis. Duas canetas diferentes podem ter sido empregadas legitimamente no mesmo momento ou em etapas autorizadas.
Tintas indistinguíveis vieram da mesma caneta?
Não necessariamente. Canetas diferentes podem utilizar a mesma formulação ou produtos com comportamento analítico semelhante. O resultado deve ser limitado ao nível dos exames realizados.
É possível identificar a marca da caneta?
Em alguns casos, uma tinta pode ser associada a uma formulação ou grupo de produtos presentes em uma coleção de referência. A identificação depende da abrangência da biblioteca e da capacidade discriminante dos métodos.
É possível determinar a data exata da escrita?
Normalmente não. Pode ser possível avaliar incompatibilidade com uma data declarada ou, em situações específicas, estimar aspectos do envelhecimento. Esses exames possuem limitações importantes e não devem ser apresentados como determinação exata da data.
É possível saber qual lançamento foi feito primeiro?
Em algumas interseções pode ser possível avaliar a ordem relativa dos traços. A viabilidade depende das tintas, do papel, da qualidade do cruzamento e dos métodos empregados.
Uma fotografia ou digitalização permite examinar a tinta?
Permite avaliar apenas a aparência reproduzida. A análise das propriedades ópticas, químicas e materiais da tinta exige acesso ao documento original.
O exame danifica o documento?
Os exames iniciais devem ser não destrutivos. Análises químicas podem exigir retirada mínima de material e somente devem ser realizadas quando justificadas, documentadas e autorizadas.
A caneta suspeita deve continuar sendo utilizada?
Não. O uso adicional pode consumir ou modificar o material disponível. O instrumento deve ser identificado, preservado e encaminhado conforme orientação técnica.
Referências técnicas selecionadas
- SWGDOC. Standard for Writing Ink Identification. Versão 2013-1. Documento técnico disponibilizado pelo NIST para identificação, comparação, coleções de referência e limitações de tintas de escrita.
- ENFSI. Best Practice Manual — The Forensic Examination of Documents. Edição final publicada em 2026.
- ANSI/ASB Standard 207. Standard for Collection and Preservation of Document Evidence. Primeira edição, 2026.
- ANSI/ASB Standard 011. Scope of Expertise in Forensic Document Examination. Primeira edição, 2022.
- ASB Technical Report 071. Forensic Document Examination Terms and Definitions. Primeira edição, 2025.
- ISO 21043-3:2025. Forensic sciences — Part 3: Analysis.
- ISO 21043-4:2025. Forensic sciences — Part 4: Interpretation.
- ISO 21043-5:2025. Forensic sciences — Part 5: Reporting.
- ENFSI. Projeto sobre métodos de datação de tintas e suas limitações científicas.